Copa do Mundo: como a colonização ajuda a entender a importância social do futebol

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Diego Maradona, que enfrentou poderosos e valorizou a identidade latino-americana, é o maior símbolo decolonialista no futebol – Foto: Luis ROBAYO/AFP/ND

Esporte mais popular do mundo pode ser ópio e também instrumento de emancipação, além de expor as vísceras da política internacional e o legado histórico de dominação e guerras

A Copa do Mundo é um fenômeno que paralisa, a cada quatro anos, todo o planeta. Sua capacidade de aglutinar paixões e mobilizar multidões nunca deixou de ser associada politicamente: do ufanismo brasileiro do ditador Médici com a Copa de 70 ao ato de resistência de Carlos Caszely, que se recusou a cumprimentar Pinochet no Chile, o que lhe custou a tortura de sua própria mãe.

O futebol como exercício de “soft power” e influência sociocultural possui um caráter polissêmico: o jogo pode ser apropriado por ditaduras homofóbicas, como o Catar, que sedia esta edição do Mundial, assim como gerar um debate global sobre direitos humanos. É ‘ópio do povo’ e emancipação, mas há uma característica intrínseca ao esporte que permite sua ressignificação: o colonialismo.

Diego Maradona, que enfrentou poderosos e valorizou a identidade latino-americana, é o maior símbolo decolonialista no futebol – Foto: Luis ROBAYO/AFP/ND

O futebol surgiu na Inglaterra, que invadiu 171 dos 200 países reconhecidos pelas Nações Unidas (88,6%) – o império britânico invadiu, ocupou ou interveio em todos os países que disputam a Copa do Catar, o que inclui o Brasil. Em 1591, Thomas Cavendish comandou a invasão, saques e ocupação de quase três meses em São Vicente e Santos, no litoral de São Paulo.

“Mesmo após a independência dos países que eram colônias de grandes potências europeias, a colonização não teve fim. A globalização não apenas manteve a lógica da colonialidade econômica, mas também no aspecto cultural. Demandas reivindicadas na sociedade são postas em xeque, em jogos de futebol, dentro e fora dos estádios. Problemas como o racismo, a violência e a xenofobia são recorrentes no esporte. Porém, são reflexos dessa sociedade pós-colonial, reflexos de séculos de exploração por elites coloniais, reproduzidas até hoje”, analisa Juliano Pizarro, professor de Educação Física da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e doutor pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas.

Apesar de ter um único título em Copas, em 1966, sob circunstâncias suspeitas (o chute de Hurst, no início da prorrogação da final contra a Alemanha, muito provavelmente não cruzou a linha), a Inglaterra possui a equipe com maior valor de mercado, segundo o site Transfer Market.

Além disso, a Liga Inglesa (Premier League) é a mais disputada, a que melhor remunera (muito também pela questão cambial) e a mais forte do mundo, com os clubes mais ricos e que vai arrecadar mais de R$ 63,7 bilhões nos próximos três anos. Nesta temporada, pelo nono ano seguido, o torneio ultrapassou 1 bilhão de euros em gastos com transferências milionárias de atletas.

O legado econômico do colonialismo é nítido, mas o imperialismo também explica o que significa a vitória de 1×0 da Tunísia sobre a França na primeira fase da Copa. O país africano conseguiu a independência do europeu apenas em 1956.

Confrontos como EUA x Irã e Inglaterra x EUA nesta Copa, ou clássicos consagrados como Argentina x Inglaterra, vão muito além de uma rivalidade histórica e vingança contra seu colonizador/invasor: o futebol fomenta a identidade nacional, proporciona orgulho a seus cidadãos, e permitiu, no Brasil, abandonar o histórico “complexo de vira-latas”, tão comentado por Nelson Rodrigues.

“Os jogos sempre mobilizaram as pessoas, o lúdico é importante. Há uma necessidade de identidade: meu time contra o do outro bairro, cria-se alteridade antagônica sem se transformar em guerra, em violência. O futebol expande-se graças à colonização e substitui os jogos locais”, explica Carmen Rial, professora de antropologia da UFSC e estudiosa do impacto do futebol na sociedade.

“É interessante pensar em tempos pós-colonialistas. O Marrocos, por exemplo, tem jogadores formados por filhos de marroquinos que vivem na Europa (o lateral-direito Hakimi, destaque do torneio e que eliminou a Espanha nas oitavas de final na última cobrança de pênalti, de ‘cavadinha’, nasceu em Madri). A cada ano a gente tem entre 1 mil e 2 mil brasileiros que saem do País para jogar, um número enorme. É um movimento de colonização e pós-colonização”, ressalta Rial, que lembra que há mais países filiados à Fifa do que à ONU.

Inclusão racial

O futebol, de certa maneira, sempre foi dominado pelas grandes potências europeias colonizadoras. As exceções são sul-americanas: Brasil, Argentina e Uruguai ressignificaram o jogo, cada um à sua maneira, e impuseram-se em muitos momentos da história contra os europeus.

Assim como Jesse Owens calou Hitler nas Olimpíadas de Berlim em 1936, Pelé, embora sempre tenha evitado o tema, levou orgulho e redenção a milhões de pessoas negras em todo o mundo – a representação importa, ainda mais nos anos 50.

Aqui vale lembrar que a população negra era proibida de jogar futebol, um esporte originalmente elitista, mas apropriado pelas massas trabalhadoras.

Atletas negros precisavam utilizar ‘pó de arroz’ para disfarçar a cor de suas peles no início do século 20 (a história é controversa e alguns torcedores do Fluminense, ainda bem, a rejeitam), enquanto Vasco e Ponte Preta carregam o orgulho até hoje de serem os pioneiros da inclusão racial no futebol nacional.

Filho de um alemão com uma brasileira negra, Arthur Friendenreich foi o primeiro craque brasileiro no futebol, autor do gol do primeiro título da seleção brasileira, o Sul-Americano de 1919. O racismo é, invariavelmente, fruto da colonização e da imposição de valores eurocêntricos ao mundo – muitos países tornaram-se racistas a partir das colonizações.

Nesta Copa do Catar há 32 seleções com apenas três técnicos negros: Rigobert Song (Camarões), Otto Addo (Gana) e Aliou Cissé (Senegal). No próprio futebol brasileiro há pouquíssimos negros que ocupam cargos de liderança, como treinador e sobretudo dirigentes.

Espaço de enfrentamento

As mulheres eram proibidas de jogar futebol no Brasil até 1979. O futebol é um espelho transparente de uma sociedade desigual.

“O futebol é um espaço de disputa de narrativas e um importante espaço para se observar problemas globais, sendo um espaço de enfrentamento. O esporte é capaz de quebrar, talvez de maneira única, a ideia de periferia-centro”, diz Pizarro.

“Mesmo com a desigualdade econômica, a mercantilização de atletas para países do ‘Norte global’, a América do Sul é, juntamente com a Europa, o centro técnico do futebol no mundo. Assim, seleções nacionais, como clubes sul-americanos, são campeões do mundo, disputando sempre com europeus a hegemonia do futebol mundial. Essa importância é sem precedentes, inclusive para a autoestima de povos colonizados e escravizados por séculos, que ainda hoje possuem o chamado ‘complexo de vira-lata’”, pontua o professor.

Outro exemplo marcante neste Mundial foi o gol do jogador suíço Embolo contra Camarões – ele não comemorou contra seu país de origem. A Suíça, apelidada de ‘ONU da Copa’, tem três atletas nascidos fora do país e outros 11 filhos de imigrantes, vindos de 15 países distintos.

Já a França ganhou o título da Copa da Rússia, em 2018, com 19 atletas dos 23 convocados podendo atuar em outras seleções – Zidane, o maior jogador da história francesa, é de origem argelina, notória colônia francesa que foi alvo de cruéis torturas e massacres. O atacante belga Lukaku é congolês, colônia brutalmente massacrada (genocídio) pela Bélgica.

Suíço Embolo recusa-se a comemorar gol contra Camarões, seu país de origem – Foto: Fabrice Coffrini/IAFP/NDSuíço Embolo recusa-se a comemorar gol contra Camarões, seu país de origem – Foto: Fabrice Coffrini/IAFP/ND

“Quando vemos Embolo fazendo gol contra seu país natal, infelizmente há uma questão simbólica muito negativa, tendo em vista que se observa o enfraquecimento técnico de seleções do “sul-global” (e consequente fortalecimento de seleções de países ricos), além de se observar uma perda de identidades nacionais. Há uma definição do colonialismo, que se subdivide em colonialismo do ‘ser’, do ‘saber’ e do ‘poder’, e o gol do Embolo contra Camarões, mesmo que o atleta não tenha comemorado, traz à tona o colonialismo do ‘ser’ e do ‘poder’”, exemplifica Pizarro.

Hegemonia europeia e a vingança de Maradona

Uma característica da Copa do Catar que ilustra a hegemonia europeia no futebol, originada na colonização, é a quantidade de vagas reservadas a cada continente:

Ásia: 4 vagas + 1 para repescagem
África: 5 vagas
Europa: 13 vagas
América do Sul: 4 vagas + 1 para repescagem
América do Norte e Central: 3 vagas + 1 para repescagem
Oceania: 1 vaga para repescagem

“O futebol serviu como paliativo à brutalidade da vida industrial e como controle do capital sobre o tempo livre dos trabalhadores. No entanto, houve uma transformação didática: virou mercadoria com vários interesses em jogo”, pontua Paulo Ricardo Capela, professor de Educação Física da UFSC.

“Ele pode ser desconstruído e construído de outra forma. É um passatempo esclarecedor, fator de emancipação das comunidades. Gira em torno dos clubes uma experiência humana gigante, ele organiza uma comunidade. Há fatores emancipatórios, que podem ser potencializados ou não. Há de se reconhecer que o futebol tem valor de alienação, se usado como alienação, mas também tem de emancipação e, sobretudo, de auto-organização”, diz Capela, lembrando que a audiência das Olimpíadas gira em torno de 3,4 bilhões de pessoas no mundo, contra 4,2 bilhões da Copa do Mundo.

A maior vingança política no âmbito esportivo da história muito provavelmente é a eliminação inglesa pela Argentina, nas quartas de final da Copa de 1986. Diego Maradona fez dois gols naquela partida: o mais bonito de todas as Copas, ao driblar meio time inglês, e o lendário gol de mão. Maradona vingou toda uma nação após a invasão britânica que levou à Guerra das Malvinas, em 1982.

“Eu tinha apenas um ano quando Maradona fez aqueles dois gols, os mais lembrados da história. A rivalidade com os ingleses estava à flor da pele e durou pelo menos mais duas décadas, com resquícios até hoje. As feridas da guerra infame, ditada por genocidas argentinos que enviaram moleques para morrer, desprovidos de equipamento, experiência e até comida, para ganhar um tempo a mais no poder, tendo do outro lado uma líder repugnante no comando do Reino Unido (Margaret Thatcher), irradiavam muito fundo no coração do argentino. Ainda doem”, afirma o argentino Ignacio Iglesias.

“Sem absolutamente nenhuma chance de derrotar os ingleses em outro âmbito e sem necessidade de derramar uma gota de sangue, Maradona nos deu essa essa vingança. Com habilidade, talento, malandragem, excelência desportiva, o gênio do futebol mundial, o ‘Barrilete Cósmico’, o nosso herói mais anti-herói, nos deu esse jogo, que é, sem dúvida, o mais revisitado e lembrado da historia da seleção Argentina”, finaliza o argentino que mora no Brasil.

Iglesias lembra ainda do fenômeno em Bangladesh, colônia inglesa, cujas ruas foram tomadas pela torcida do futebol argentino. A afinidade entre os países tão distantes começou justamente com a vingança contra a Inglaterra em 1986 e só aumentou até hoje.

Maradona desempenhou um papel fundamental na luta contra o colonialismo por alguns motivos, como lembra Pizarro: era o oposto da mercantilização do futebol; intensa vida política, com críticas à Fifa e às potências imperialistas; sem medo de se posicionar, criou um forte vínculo com o povo latino-americano ao “encarnar os valores do continente.

A forma como ele se posicionou a favor do ‘popular’ tem grande impacto em sua imagem. Na rivalidade entre Europa e América Latina, ele vai valorizar não só o futebol latino-americano, mas também o ‘ser’ latino-americano. Na cobertura da sua morte, vi uma entrevista de um morador de rua na Argentina que falou: ‘muitas vezes não tínhamos o que comer, mas Diego nos fazia felizes’.

A Copa no Catar e a homofobia

Muitos estudos acadêmicos abordam o legado colonial da homofobia e a imposição de valores de gênero em diversas sociedades. Embora o Catar, em si, tenha suas próprias características históricas e religiosas, a homofobia pode sim ser considerada uma herança colonialista.

Autoridades catares defendem sua posição de intolerância à diversidade sexual a partir do argumento que os valores ocidentais não são universais. O ‘choque de culturas’ gerou um debate internacional sobre homofobia e direitos humanos.

A seleção da Alemanha protestou contra o que chamaram de censura da Fifa, que proibiu o capitão e goleiro Neuer de usar a braçadeira de capitão com as cores do arco-íris, em homenagem à luta contra a homofobia, o que foi feito em diversas partidas eliminatórias à Copa.

“O Código Penal do Catar proíbe a atividade homossexual para homens e mulheres e prevê, como pena máxima, até o apedrejamento”, diz Pizarro. “As manifestações contra esse tipo de intolerância ao redor do mundo dão esperança de dias melhores”.

“Relativizar a diversidade cultural é importante, isso deve ser levado em conta, mas direitos humanos são o limite. No meu ponto de vista, direitos humanos precisam ser respeitados em qualquer lugar”, avalia Rial. Contudo, “antes de falar da discriminação no Catar, vamos olhar o Brasil”.

O Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil, elaborado pelo Observatório de Mortes e Violências contra LGBTQIA+, indica que, em 2021, houve pelo menos 316 mortes violentas contra esse público, aumento de 33,3% em relação a 2020.

De acordo com o Grupo Gay da Bahia, o Brasil é o país que mais assassina a população LGBTQIA+ – uma morte a cada 29 horas, embora estimativas indiquem que o número deva ser bem maior devido às subnotificações.

“Avalio positivamente o debate sobre homofobia gerado na Copa. É de fundamental importância que os jogadores, entre eles o Richarlison, tenham se pronunciado. Isso é muito importante. Essa homofobia também foi causada pela colonização desses mesmos países que agora a denunciam, como a Alemanha, Inglaterra, Bélgica, etc. Quando colonizam continentes como a África, eles levam um sistema de gênero que não existia e levam um tipo de discriminação que não existia lá – desde a época vitoriana há leis que criminalizavam homoerotismo – Oscar Wilde foi preso por isso”, lembra Rial.

Embora o futebol ainda seja um espaço restrito ao homem heterossexual (jogadores de primeira linha têm muitos problemas para assumirem sua homossexualidade), ele é uma ferramenta poderosa de transformação social.

“Nas arquibancadas, principalmente falando no futebol brasileiro, vemos surgir os chamados coletivos, em que determinado grupo de pessoas se junta para assistir às partidas, seja por afinidades ideológicas ou até por autoproteção. Esse tipo de movimento, como coletivos feministas, coletivos LGBTQIA+ e coletivos antirracistas, surgem a partir de uma lógica das arquibancadas de serem ambientes hostis, principalmente para mulheres, homossexuais e negros, o que se observa até por músicas de torcidas organizadas”, analisa Pizarro.

“Não é de hoje que há muita violência em estádios de futebol, mas o caminho para o enfrentamento é a partir de políticas públicas de combate à violência em paralelo a práticas como as dos coletivos, que surgem exatamente com o intuito de conscientizar a forma de torcer, trazendo uma questão de pertencimento, pois o futebol é (ou deveria ser) de todos”, finaliza Pizarro.

Como disse Eduardo Galeano: “Não há nada maior que uma Copa do Mundo”.

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